Pérolas do ainda ministro<br>Aguiar-Branco

Rui Fernandes

Na sessão de abertura do fórum internacional da indústria da NATO, o ainda ministro Aguiar-Branco disse que o tempo actual não permite «experimentalismos políticos» e que «se alguma coisa acontecer, os nossos amigos aliados vão ajudar (…). É por isso que o futuro de Portugal na NATO nunca pode estar em questão».

Os quatro anos de Aguiar-Branco como ministro da Defesa estão marcadas por várias afirmações de fazer arrepiar. É por isso justo anotar a coerência somando ao rol mais esta pérola. Claro está que se trata de uma pérola de outro quilate, porque a NATO vem ajudar em quê? No combate ao perigo comunista? No combate a hipotéticos desenvolvimentos de soluções institucionais resultantes das eleições, e conformes com as regras constitucionais, mas das quais discorda?

Bem se percebe da afirmação de Aguiar-Branco, como de uma vasta plêiade de analistas e comentadores, o real conceito de democracia que os invade. Isto é, a democracia válida é a sua – nos seus termos, conteúdos e considerações. Tudo o que saia fora da grelha pré-definida é perigoso, é golpe de Estado e outras alarvidades. As associações militares já tinham desse conceito de democracia uma vasta experiência vivida que, agora, ganha uma outra luminosidade e amplitude.

Para Aguiar-Branco, e dezenas de outros com presença fixa nas TV e jornais, o único experimentalismo político possível é o do costume, com os do costume e com as soluções e opções do costume. Contudo, coisa tramada esta, a de o voto popular e o regime constitucional poder configurar outras soluções, estoirando assim – e independentemente dos desfechos em curso – com a ideia do arco da governação, dando razão aos que disseram e repetiram que as eleições legislativas eram (são) para eleger 230 deputados.

Se Aguiar-Branco, fanfarronicamente, dispara verbalmente, os «amigos» dos EUA/NATO têm uma vasta experiência de disparar a sério, possuindo igualmente o estilo fanfarrónico. O estilo de quem tem o melhor de tudo na missão de impor os seus interesses e objectivos. E foi assim que, no quadro do exercício da NATO, desembarcaram nas areias de Grândola. Tudo estava a postos para assistir a tais potencialidades – palanques, binóculos, jornalistas. Lá vinham eles na bisga e…. atascaram-se nas areias das praias de Grândola Vila Morena. Se estes se atascaram nas areias, Aguiar-Branco e congéneres atascaram-se na Constituição da República portuguesa, fruto da Revolução de Abril e das muitas Grândolas vilas morenas cantadas na luta pela liberdade e a democracia.

 



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